quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Coleçao Aprender Brincando

Mário e Jan
Um dia, eu estava conversando com papai e surgiu a idéia de criar uma coleção de cartilhas direcionadas para as crianças das escolas públicas. A coleção teria a finalidade de contar a vida e a obra de brasileiros ilustres, através de uma linguagem acessível, e ilustrada com desenhos para colorir, o que certamente tornaria mais agradável a utilização das cartilhas nas atividades escolares.

Papai só impôs uma condição: a coleção não poderia ser comercializada, teria que ser distribuída nas escolas. Diante disso, a única saída foi procurar patrocinadores, empresas que bancassem a impressão das cartilhas em troca de publicidade na capa.

Assim, papai começou a produzir o texto da primeira cartilha, que contaria a história de Gilberto Freyre, e eu fiquei com a missão de procurar um artista gráfico para ilustrar o texto, fazer a diagramação gráfica da cartilha  e encontrar uma empresa para custear a impressão.

Para fazer as ilustrações convidei o Marcel Mello, que na época estava começando suas atividades como artista gráfico, mas já tinha um traço bem definido e marcante. Quando conversei com o Marcel, ele adorou a idéia e topou de primeira. Achou fantástica a idéia de distribuir as cartilhas nas escolas públicas.

Em seguida, o mais difícil, a empresa para patrocinar a impressão das cartilhas. Resolvemos fazer uma parceria com a Fundação Gilberto Freyre, que tinha um convênio com o Governo do Estado que promovia constantes visitas dos alunos das escolas da rede pública à Fundação Gilberto Freyre. A idéia de distribuir as cartilhas através da Fundação durante as visitas foi sugerida e aceita imediatamente pelo então Superintendente Gilberto Freyre Neto.


Assim, fui procurar uma empresa para patrocinar  a impressão da primeira cartilha, intitulada Um Menino Chamado Gilberto Freyre, com a chancela da  Fundação que levava seu nome. Na verdade, não foi difícil. Comentei o projeto com o Clóvis Lacerda, na época diretor da Elógica, que era o maior provedor local de internet. Ele topou na hora. Adorou o projeto. Papai ficou muito feliz. Foram impressos 15.000 exemplares do primeiro número da coleção Aprender Brincando.



Fizemos o lançamento na Fundação Gilberto Freyre, que a partir desse dia passou a distribuir as cartilhas com os alunos das escolas públicas que participavam das visitas dirigidas à Fundação.

A partir dai, meu pai não parou mais de escrever, quando dei por mim, mais três textos já estavam prontos: Joaquim Nabuco, Dom Hélder Câmara e Capiba.Com os três textos já ilustrados pelo artista plástico Marcel Mello parti em busca de patrocínio para as cartilhas. Encontrei na BCP Telecomunicações um grande parceiro. Através de um dos seus diretores, Albino Serra, meu amigo particular, entrei em contato com o departamento de marketing da empresa que comprou de imediato a idéia. Eles adoraram o fato da coleção não poder ser comercializada.

E assim foi feito. Foram impressos 15.000 exemplares de Um Menino Chamado Joaquim Nabuco, 15.000 exemplares de Um Menino Chamado Hélder Câmara e 15.000 exemplares de Um Menino Chamado Capiba. Todos distribuídos pela Fundação Gilberto Freyre aos alunos das escolas públicas que visitavam a Fundação.

O sonho do meu pai estava realizado, de uma vez só atingimos um grande público, carente de informações, com um produto gratuito e de boa qualidade. Assim, no início do ano 2000, a coleção Aprender Brincando contava com 4 números impressos e meu pai estava para completar 80 anos no dia 14 de maio. Resolvi então prestar uma homenagem a ele e escrevi o texto de Um Menino Chamado Mário Souto Maior. O Marcel fez as ilustrações e a BCP bancou, mais uma vez, a impressão. Lançamos a cartilha durante a sua festa de 80 anos que foi realizada na Fundação Joaquim Nabuco, no dia do seu aniversário. Foi um sucesso e meu pai ficou muito emocionado. Como as anteriores, a cartilha foi distribuída nas escolas públicas pela Fundação Gilberto Freyre, mais 15.000 exemplares foram entregues aos alunos carentes de nossa cidade.

Em novembro de 2001, meu pai faleceu. Com a morte dele a coleção Aprender Brincando foi interrompida. Passei uns bons anos sem ter coragem de manusear as coisas dele. Até o site ficou abandonado. No ar, mas estagnado. Me faltavam forças, ânimo para me envolver com o mundo do folclore de Mário Souto Maior. Algum tempo atrás, resolvi refazer o site dele, na tentativa de não deixar morrer a sua obra, a sua memória, não deixar que ele, com o esquecimento, morresse pela segunda vez (frase de um escritor, do qual não lembro agora). Contando com o apoio cultural do Urbano Vitalino Advogados, o site foi refeito usando um gerenciador de conteúdos e foi todo repaginado. Estamos colocando vários dos seus livros para download.

Procurando material para o site, encontrei alguns disquetes de papai. Entre outros, encontrei mais 6 textos para a coleção Aprender Brincando. Monteiro Lobato, Assis Chateaubriand, Rui Barbosa, Câmara Cascudo, Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado e um texto chamado Uma Cidade Chamada Recife.

Resolvi então retomar a coleção. Primeiro, disponibilizando os números já existentes para download de duas formas: Uma versão para leitura e uma versão para impressão em tamanho A4. Em qualquer impressora as cartilhas impressas usando a função frente e verso já sairão prontas. É só dobrar e grampear, podendo assim ser distribuídas para todos que tiverem interesse nos livrinhos.

Os textos inéditos tentaremos publicar. Vamos procurar empresas para financiar a impressão e distribuir o maior número de exemplares possível. Você quer ajudar? Entre em contato: jan@soutomaior.eti.br

Versões para Download

Um Menino Chamado Gilberto Freire  -  Leitura  |  Impressão
Um Menino Chamado Joaquim Nabuco  -  Leitura  |  Impressão
Um Menino Chamado Hélder Câmara  -  Leitura  |  Impressão
Um Menino Chamado Capiba  -  Leitura  |  Impressão
Um Menino Chamado Mário Souto Maior  -  Leitura  |  Impressão

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Um Menino Chamado Mário Souto Maior



Um dia, conversando com papai, sugeri que ele escrevesse livrinhos infantis  sobre a vida e obra de grandes brasileiros. Criamos assim a coleção Aprender Brincando. Convidamos, então, o artista gráfico Marcel Melo para ilustrar os livrinhos que seriam destinados, exclusivamente, a distribuição gratuita nas escolas públicas da cidade do Recife. Com os livros escritos e ilustrados corremos em busca de patrocínio para que fosse possível distribuir uma grande quantidade de exemplares.  Com o apoio do Grupo Elógica e da BCP Telecomunicações, hoje Claro, foram publicados e distribuídos Um Menino Chamado Gilberto Freyre, Um Menino Chamado Hélder Câmara, Um Menino Chamado Joaquim Nabuco e Um Menino Chamado Capiba, num total de 15.000 exemplares de cada.





 Para homenagear os oitenta anos do meu pai, tomei seu lugar e em 2000 escrevi Um Menino Chamado Mário Souto Maior, que foi lançado durante sua festa de 80 anos realizada na Fundação Joaquim Nabuco em  14 de julho de 2000. Aqui vai ela... 


UM MENINO CHAMADO MÁRIO SOUTO MAIOR


       - Xiiiiii, cadê vôinho? Será que não vai ter estorinha  hoje, Tio Jan?  - gritou Lucas, contrariado.

- Vai sim, Lucas. Seu avô teve que sair, mas o tio aqui vai contar pra vocês uma estorinha muito bacana que, com certeza, vocês vão gostar.

A meninada me olhou, desconfiada. É que eles já estavam acostumados a ouvir, aos domingos, o avô contando estórias descrevendo a vida de grandes brasileiros e o que fizeram para merecer o respeito de  todos. E fui sentando na cadeira do avô deles, meu pai, Mário Souto Maior. Mesmo desconfiados, todos se sentaram perto de mim, meio insatisfeitos, mas curiosos.

- Sobre quem vai ser a estória de hoje, Tio Jan? - perguntou Carol.

- É sobre um pernambucano que vocês conhecem muito, um cabra da peste que já escreveu muitos livros sobre o povo nordestino, seus usos, seus costumes...

- E o que é cabra da peste? Será um bicho, uma cabra doente? - quis saber Érica.

- Não, Érica. Cabra da peste é como são chamadas  as pessoas que nascem no interior do Nordeste. Pessoas corajosas, valentes e boas e que, desde cedo, enfrentam os problemas causados pela seca, por exemplo...

- Ah! entendi, Tio Jan. mas quem é esse cabra da peste? - perguntou Érica.

- Vocês o conhecem muito bem. O nome dele é Mário Souto Maior.

- O vôinho? - perguntaram todos.

- Ele mesmo.

- Ôba! - gritaram todos de uma só vez.

- Conta, Tio. Conta, vai.

- Então prestem atenção. Mário Souto Maior, o vô Bálio (como o chama Eduardo), filho de Manuel Gonçalves Souto Maior e de Marieta da Mota Souto Maior, nasceu no dia 14 de julho de 1920, na cidade deBom Jardim, interior de Pernambuco, a uns 100 km de Recife. Cresceu como todo nordestino, tomando banho de açude, jogando pião e boa de gude, empinando papagaio, caçando lagartixa de bodoque, chupando pirulito de açúcar, saboreando algodão doce e alfenim, andando pelo mato em busca de aventuras, brincando de Lampião e Antônio Silvino armado de baladeira ou estilingue ou bodoque.

- O que é bodoque, tio? - perguntou Marcelo.

- O bodoque, baladeira ou estilingue é feito com um pequeno galho de árvore, geralmente de goiabeira, no formato da letra Y, no qual se prendem dias tiras de borracha de câmara de ar de automóvel, brinquedo muito usado pelos meninos do interior.

- E serve pra que? - perguntou Bruno, que estava muito atento.

- Os meninos usam o bodoque para atirar, usando o fruto da carrapateira ou bolinhas de barro como balas.

- Aqui, em casa, tem uma goiabeira. Só falta a carrapateira... - falou Lucas.

- Mas vamos continuar a estória. O menino Mário começou a aprender a ler quando fez 10 anos, na escola da professora Santinha. Fez o curso primário e ginasial no Colégio Marista (Recife), o pré-jurídico no Colégio Carneiro Leão, para em seguida, formar-se em Direito pela Faculdade de Direito de Alagoas.

Antes de terminar o curso de Direito o avôbde vocês casou com vovó Carmen e tiveram seus sete filhos: Fred, Gise, Jane, Lis, Jan e os gêmeos Glen e Ed.

- Puxa Tio, que nomes engraçados - falou Marcelo.

- Ah! Foi o avô de  vocês que escolheu e caso nome tem a sua estória.

- Conta Tio...

- Vou contar. O nome escolhido para o primeiro filho foi FREDERICO. Mas o avô de vocês , separando as sílabas  do jeito dele, encontrou FRED-É-RICO. Como não tinha ninguém rico na família, cortou o ERICO e batizou o menino como Fred, que, como vocês sabem, é casado com Maria Helena e pai de Carolina, Érica e Marcelo. Em seguida, nasceu a primeira menina e seu nome seria Gisele. Vô Mário  cortou o LE e ficou somente Gise, que é a mãe do Bruno. Depois nasceu a segunda filha que seria Rejane, que, sem o RE, ficou Jane. Em seguida veio a terceira menina que seria Elisabete que perdendo o E  e o  BETE foi batizada de Lis. Depois néscio eu, Jan, nome  de um personagem de um livro que ele estava lendo. Os gêmeos foram batizados  homenageando duas pessoas. Glen, em homenagem ao maestro Glen Miller e Ed, nome de um grande amigo americano dele, Edmund Molloy, claro que o avô de vocês para não perder o hábito cortou o MUND, e ficou somente Ed.

- Bem criativo o vô Mário, não é Tio Jan? - falou o Bruno.

- É, mas vamos continuar a nossa estória. Advogado dos pobres, Mário Souto Maior foi promotor público de Surubim e João Alfredo, foi Prefeito de Orobó, professor da Escola Normal e do Ginásio de Bom Jardim, que fundou para que os meninos pobres de sua terra pudessem estudar e foi Inspetor Federal de Ensino do Ministério da Educação.

Em 1967 veio, com toda a família, morar no Recife, para que nós, seus filhos, pudéssemos estudar, já que em Bom Jardim não havia universidade. Foi trabalhar no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, hoje Fundação Joaquim Nabuco, onde começou a fazer suas pesquisas e escrever seus livros, sempre abordando o folclore como tema.

- O que é Folclore, Tio? - perguntou Érica.

- Folclore é o conjunto de tradições  e usos populares de um povo. Suas danças, comidas, adivinhações, sua maneira de falar e coisas mais.

- Difícil, não é Tio? - continuou Érica, sempre muito curiosa.

- É apenas trabalhoso e exige muita dedicação e paciência. Vô Mário começou a esçrever seus livros. Publicou Como Nasce um Cabra da Peste, que foi transformado em uma peça de teatro por Altimar Pimentel, seu amigo. Depois publicou Cachaça, Nomes Próprios Pouco Comuns, Comes e Bebes do Nordeste, Dicionário do Palavrão, num total de mais de setenta livros.

- Tantos assim, Tio? Pra que  vovô quer tantos livros ? - perguntou Lucas.

- Para que as pessoas possam pesquisar e aprender através deles.

- Hoje, com seus oitenta anos de muito trabalho e de muita luta é chefe da Coordenadoria de Estudos Folclóricos da Fundação Joaquim Nabuco, onde trabalha desde 1967. Mário Souto Maior - meu pai e avô de vocês - é poeta, contista, folclorista, escreve para revistas e jornais brasileiros e estrangeiros e já ganhou muitos prêmios.

- E vô tem taça? Quis saber Lucas.

- Tem sim, Lucas.

- Gooool!- gritou Eduardo levantando as mãozinhas e pulando.

- Com o livro Alimentação e Folclore, ele ganhou o prêmio Sílvio Romero (1979) do Ministério da Educação e Cultura e o Gran Prêmio Íberoamericano Augusto Cortazar (1989), do Fondo do Ministério de la Educación Y Justicia, da Argentina.

- Este ano ele está completando oitenta anos e agente vai fazer uma grande festa para ele.

- Vai ter bolo? - perguntou Bruno.

- Vai ter sim, Bruno. Guaraná, pipoca, bola de soprar, cocada, suspiro, algodão doce, e tudo o que ele merece.

E a garotada saiu da sala, fazendo a maior algazarra, cada um fazendo seus planos para comemorar o aniversário do avô, contador de estórias.




Após o seu falecimento, em 2001, achei mais uns 10 textos, entre eles, Um Menino Chamado Monteiro Lobato, Um Menino Chamado Rui Barbosa, Um Menino Chamado Câmara Cascudo e Uma Cidade Chamada Recife. Estou procurando patrocínio para publicar e distribuir os livrinhos.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

As Aventuras de Rodrigo Come-Come: O aniversário


Desenho de Ray Sofia
Desenho de Rayanna - 8 Anos
Era uma vez, uma girafinha de pescoço beeeeeeeeeeeeem comprido, chamada Rodrigo Come-Come. Rodrigo vivia sempre esfomeado, com a barriga roncando e não podia ver comida.

Um dia, Rodrigo foi convidado para uma festa de aniversário. No dia da festa, tomou banho, colocou sua melhor roupa e, como não gosta de chegar atrasado, foi correndo para o local da festa.

Para variar, chegou quase uma hora adiantado. Ainda não tinha chegado ninguém.  Mesmo assim Rodrigo resolveu dar uma olhada no salão da festa, e aproveitando que a porta estava só encostada, foi ver como estava  a arrumação.

O salão estava todo arrumado e tinha duas mesas bem no centro. Uma com um imenso bolo  e outra repleta de doces e salgados.

O cheiro do bolo começou a invadir o nariz de Rodrigo, ele se aproximou da mesa, olhou pro bolo enorme, de três andares, todo coberto de chocolate, uma beleza.  Não resistindo, passou a mão na barriguinha  e disse:

- Tá me dando uma fominnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnhaaaaaaaaaaaaaaac !!

E engoliu o bolo inteiro de uma vez só. Não sobraram nem as velinhas. Com uma abocanhada só, Rodrigo engoliu um bolo enorme de três andares. Assustado, olhou pros lados para ver se alguém já tinha chegado, mas viu que estava sozinho no salão.

Não satisfeito, Rodrigo se aproximou da mesa de doces e salgados. A mesa estava cheia. Empadas, pastéis, bem-casados, brigadeiros, queijadinhas e o seu doce preferido: quindim.

Irresistível !!!! Rodrigo se aproxima da mesa sem tirar os olhos das guloseimas, como se estivesse hipnotizado.  Sentiu o cheirinho de coisa gostosa. Passou a mão na barriguinha e disse:

- Tá me dando uma fominnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnhaaaaaaaaaaaaaaac !!

E comeu todos os doces e salgados de uma só vez!  Não sobrou nenhum para contar história.

De repente ele escuta vozes. E agora? Os convidados estão chegando....

Rodrigo se joga embaixo de uma das mesas e fica escondido pela toalha colorida que cobre a mesa e vai até o chão.

Quando os donos da festa entram no salão e se deparam com as mesas vazias ficam nervosos e sem entender o que tinha acontecido. Onde estão os doces? E o bolo? O bolo sumiu!!!

Rapidamente foram buscar um outro bolo, e alguns doces que tinham ficado na cozinha. Arrumaram rapidamente as mesas, para que o aniversariante pudesse comemorar com seus convidados.

Escondido embaixo de uma das mesas, Rodrigo Come-Come faz um esforço enorme para não fazer nenhum barulho. Mas o cheirinho de coisas gostosas começou a  chegar no seu nariz, e a barriguinha do Rodrigo começa a roncar.

As pessoas  ficaram sem  entender nada. Todos escutando aquele ronco baixinho, como se tivesse saindo do bolo.  De repente, sem agüentar mais, Rodrigo Come-Come  sai do seu esconderijo, avança para a mesa do bolo, passa a mão na barriguinha e diz:

- Tá me dando uma fominnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnhaaaaaaaaaaaaaaac !!

Engole o bolo todinho de uma só vez!  Depois do susto, o aniversariante e seus convidados percebem o que havia acontecido com os bolos e os doces e partem pra cima do Rodrigo.

Rodrigo sai correndo da festa, com toda  aquela multidão atrás dele e se embrenha na floresta, procurando um lugar para se esconder.  Correu muito, durante várias horas, até que não conseguiu mais ver ninguém atrás dele. Muito cansado, suado, sentou-se num tronco  próximo. Ofegante,  só sentia aquele vazio no estômago. Correu tanto que a fome bateu de novo. Passou a mão na barriguinha e disse.....

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Anna Christina

São fotos com emoção. Cada foto com  um verso. Como as fotos, cada verso tem vida própria.E no final um poema  que se completa com as fotos. Um poema e uma foto que juntos representam um amor que dura uma vida inteira...
Afinal eu tenho a mais bela mulher do mundo.


07/11/2012
04/11/2012
01/11/2012

30/10/2012












sábado, 27 de outubro de 2012

Por que as rãs são verdes?

Esse conto infantil eu criei hoje, quando minha sobrinha Ray me pediu para brincar de criar estórias. Eu fui criando na hora e como ela gostou tanto, resolvi colocar aqui no Blog. Enquanto estava escrevendo, encontrei através do Facebook,  Marcel Melo, amigo de longas datas, artista gráfico, e pedi a ele  uma ilustração, que,   15 minutos depois,  já estava em minhas mãos.


POR QUE AS RÃS SÃO VERDES
Para Ray



Era uma vez, uma lagoa muita grande de águas cristalinas. Enorme!  Ela tinha uma ilha bem no meio, dividindo-a em duas partes. A ilha era coberta por  uma vegetação fechada e alta, e  de cada um dos lados da lagoa, não se via o lado oposto.

Do lado de cá da lagoa viviam muitas rãs, bem  verdinhas e de todos os tamanhos, que passavam o dia se alimentando de pequenos insetos e tomando sol em cima das pedras que cercavam a lagoa.

Em meio a todas, uma pequena rã em especial se destacava. Ela chamava-se Gilda e era toda amarelinha. Gilda vivia triste por ser tão diferente e não gostava das brincadeiras que as outras rãs faziam  por causa de sua cor.

As outras rãs a chamavam de canário e ficavam mandando ela voar.  Pura brincadeira de rã. Assim, Gilda vivia sempre sozinha e gostava de ficar sobre uma pedra no meio do lago, olhando para a ilha em frente, tentando imaginar o que lá havia.

Um dia, Gilda se encheu de coragem e resolveu fugir, atravessar a lagoa e nadar até chegar na  ilha misteriosa, nunca antes visitada por qualquer uma daquelas criaturas. Encheu uma mochila de comida e esperou a noite chegar.

A noitinha, enquanto todos dormiam, Gilda nadou até a ilha, e lá chegando, entrou na mata, andando sempre na mesma direção. Um cheirinho gostoso de mato e uma ventania bem fresca acompanhavam Gilda, enquanto ela andava procurando um lugar para descansar  e passar a noite.

De repente, Gilda avista um pequeno ponto de luz, lá distante, e para lá se dirige. A medida que caminha o ponto de luz aumenta e quando chega mais perto avista uma pequena cabana com a janela aberta e iluminada.

Gilda se aproxima, empurra a porta da cabana  e entra, meio assustada. Sentado em uma cadeira de balanço, um sapo bem velhinho, de barba branca e bem comprida, que se arrastava no chão, sorriu para ela e gentilmente ofereceu uma cadeira para que ela se acomodasse.

- Olá, pequena rã, meu nome é Sapusco e o seu?
- Meu nome é Gilda, respondeu.
- o que você faz aqui, Gilda? De onde você vem?
- Eu venho lá da lagoa, fugi de lá. As outras rãs não gostavam de mim.
- Por quê? Perguntou o velho sapo.
- Por causa da minha cor, todas as rãs da lagoa são verdes. Só eu sou amarela.
- Você é especial Gilda, e quando chegar no fim de sua viagem, descobrirá a razão de ser tão diferente. É melhor dormir agora.

Assim, Gilda escolheu um cantinho e se ajeitou, preparando-se para dormir. O velho sapo adormeceu na cadeira e tinha um sono bem barulhento, cheio de roncos e assobios. Gilda adormeceu, apesar do barulho e teve um sono bem tranquilo.

Quando amanheceu,  o velho sapo tinha desaparecido. Gilda juntou suas coisas e seguiu seu caminho através do matagal.  Depois de muito caminhar, Gilda começou a notar que as árvores começavam a ficar mais baixas, e o mato menos fechado. Aos poucos, começou a avistar um lago, apressou o passo e chegou na margem. Não havia ninguém por perto.  Cansada, Gilda escolheu uma pedrinha bem lisa e adormeceu.

O sol forte e já bem alto acordou Gilda.  Ao despertar, ela viu dezenas de rãs ao seu redor. Todas verdes, igualzinhas as da sua lagoa.

Gilda ficou tão triste que começou a chorar. Havia andado tanto pra nada. Aqui, ela também seria diferente de todas as outras rãs.

De repente, uma rã menino, bem azul, da cor do céu, apareceu,  e sorrindo perguntou:

- Como se chama?
- Eu me chamo Gilda, e você ?
- Meu nome é Gil. Você é muito bonita. Parece um canário...
- Gilda sorriu e disse - Obrigada, você também é muito bonito, parece um periquito...

Gilda e Gil ficaram muito amigos e se casaram. Um dia, quando nasceu a primeira  filhinha, ficaram maravilhados. Havia nascido uma rã verdinha.

Gilda então entendeu porque era diferente. Na verdade, no começo dos tempos todas as rãs meninas eram amarelas e as rãs meninos eram azuis, dando origem, assim, as rãs verdinhas.

Gilda percebeu que, na verdade, ela era especial, fazia parte do grupo que originou toda uma raça. Um sorriso apareceu em seu rosto  quando lembrou-se das palavras do  velho Sapusco.

E assim viveu feliz toda a sua vida.


26 de Outubro de 2012






sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A Lágrima e a Flor

















Faz tempo que não vejo,
Faz séculos que eu não sinto,
Faz vida que eu não tenho,
Um livro que sempre li.

Há muito que eu quero,
Faz tempo que eu preciso,
Faz vida que ela existe,
Agora é que descobri.

Mas quando se ilumina o caminho,
E os olhares se cruzam,
As lágrimas alegres e tristes,
Não me deixam mais sozinho.

E a cada lágrima que rola,
É uma flor que desabrocha,
É uma lágrima alegre que chora,
Porque você está aqui.

E quando rola  aquela lágrima,
É como se a flor murchasse,
É  quando você vai embora,
E  a vida deixa de sorrir ...

Outubro - 2012

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Meu Coupe Amarelo

Em 1995, o governo havia  liberado a  importação de carros a pouco tempo e eu comprei  um  Golf Glx 2.0 Roxo, legítima alma alemã,  importado do México. Vendi meu gol bola azul bebê,  e financiei o resto em 12 enormes parcelas. Carro lindo, potente, muito bem acabado. Ninguém imagina como fiquei orgulhoso em olhar pro estacionamento e ver  o meu chucrute roxo paradão, parecia uma modelo, posando para foto de revista.  Só não notei que o Golf não tinha ar condicionado.

Não me perguntem como fui capaz de fazer uma asneira dessas. Acho que estava tão doidão para por a mão no meu primeiro carro de verdade, depois das carroças do período  pré-Collor, que nem notei que o gol de luxo seria a primeira sauna móvel, importada e cara da minha vida.

Foi um ano de sofrimento durante o inverno e prazer imenso durante o verão. Instalar um ar condicionado no Golf estava fora de questão. Além de caro, existia ainda o problema da perda da garantia, pois nem na concessionária era feita a instalação.  Então o jeito era andar de janela aberta e rezar pra não chover.  A minha sorte é que além de chover pouco, ainda se podia dirigir de janelas abertas pelas ruas de nossa cidade, de dia e de noite.

Após um ano, doze parcelas pagas, chegou a hora de me desfazer da minha sauna móvel. Resolvi então comprar um Tempra da Fiat, carrão que fazia o maior sucesso na cidade. Apesar de não ter ar,  o Golf  era  muito bom de venda e consegui um bom preço pelo carrão.

Animado,  fui para a concessionária da Fiat para comprar meu sonho de consumo. Encontrei um modelo completo, cinza chumbo, perfeito. Feliz e radiante, voltei para casa satisfeito, com mais um bloco de parcelas no bolso,  por ter realizado o meu desejo.  No meio do caminho, recebo uma ligação no meu celular, um  bolachão elite,  do vendedor,  pedindo para que eu retornasse imediatamente a loja.

De volta a loja, descobri que tinham me vendido um carro já vendido, e ainda por cima,  que não tinha mais nenhuma unidade na loja. O carro tinha ótima saída e eles venderam  todo o estoque.

Chateado, depois de ligar para as outras duas concessionárias  da marca na cidade e receber a mesma notícia, fui chamado na gerência. Não lembro agora o nome do gerente que me atendeu, mas me disse que tinha uma proposta irrecusável para me fazer. A Fiat havia importado um número reduzido de carros da sua fábrica na Itália e já estavam sendo preparados para a venda.

O gerente me levou na oficina e quando eu olhei o carro, bem de longe, já dei meia volta, chamando o gerente de louco e dizendo que eu não tinha de onde tirar tanto dinheiro para pagar um carro daquele.

O gerente insistiu em me mostrar o carro. Esguio, perfeito, sem um único friso externo. Aerodinâmica de carro de corrida. Um autêntico pninfarinna. O carro foi desenhado pela empresa que cuidava do design da Ferrari.

O carro era lindo e .... Amarelo. Mas amarelo mesmo, igual a cor adotada pelos Correios. Amarelo gema de ovo. Estávamos na época áurea da equivalência cambial com o dólar, tipo 1 pra 1. Assim o carro esta sendo ofertado na época por 32.000 dólares, ou seja uns 4 ou 5.000 a mais do que o já ultrapassado e arcaico Tempra HLX.

E assim,  sai da concessionária, sem placa, no meu  Fiat Coupe Amarelo 2.0 16v, com mais 12 parcelonas no bolso pra pagar. Mas sai satisfeito. Parei no primeiro posto para abastecer e juntou gente pra ver o amarelão. Sucesso garantido.

Isso virou costume, onde eu chegava, juntava gente, para ver minha Ferrari Amarela. Muita gente nem procurava o cavalinho, bastava ver o desenho do carro e a cor para ficar admirando o Coupe.

A coisa  foi tão marcante, que o povo do bairro ensinava as pessoas usando a minha casa como parâmetro: ficava  antes ou depois da casa do carro amarelo?

Foram três anos andando com aquela beleza de carro. Tive sorte, não me deu dor de cabeça, apenas trocava a bateria todo ano, andei quase 100.000 km com ele. Infelizmente a Fiat não importou outras unidades, e a manutenção se tornou inviável. Tive que me desfazer da minha Ferrari amarela. Que saudade!!!

Antes que eu me esqueça, meu carro amarelo  tinha ar condicionado.

Outubro de 2012


segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Minhas Luas

De todas as Luas que no mundo existem, certamente as minhas são as mais lindas. Assim são por serem além de lindas, representativas. Elas simbolizam as três fases da vida das pessoas. A Lua inicial, que é a Lua criança, a Lua Plena que é a Lua adulta e a Lua Final que mingua tranqüila a caminho do destino de cada um.

Lua Inicial
 A lua inicial é azul, aparece sempre durante o dia, ingênua, suave e brincalhona, se diverte brincando de esconde-esconde com as nuvens. Exige mais atenção para ser vista, não é tão brilhante e formosa, mas já reflete a personalidade e o caráter de quem representa. Sua energia ainda parece inerte, mas é contínua e crescente. 

Lua Plena

A Lua Plena é intensa, cheia e brilhante. Faz questão de ficar sempre a vista, iluminada. Fácil de ser notada, exala energia, vigor e força todo o tempo. Demonstra a toda hora a vontade de viver e de refletir luz para iluminar as noites escuras, concorrendo com as estrelas longínquas. 

Lua Final


A Lua Final é a mais singela, acinzentada e escura, se esconde por entre as nuvens se despedindo do mundo mas sempre exibindo sua sabedoria através de sua beleza misteriosa. Essas são as minhas três luas. 

Existe ainda uma quarta Lua. A Lua imortal, sem imagem, formada somente de lembranças e saudades, ela vive invisível e dela emanam as idéias e pensamentos das pessoas que ficaram de alguma forma gravados em suas memórias, mesmo quando o sol nasce acordando o mundo.

Nasce o Sol, que ilumina as minhas Luas
Outubro de 2012

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Testamento de um Sonhador


Caminhando por uma rua fria e escura, envolta por uma névoa esbranquiçada, quase cristalina, encontro um velho esfarrapado sentado na calçada. Ele me olha atentamente. Vejo seu rosto triste, gasto pelo tempo e pelo sofrimento. Quando dei por mim, estava parado em frente a ele, sem conseguir me mover, nem um passo.

- Sente-se por favor - me pediu gentilmente, com uma voz surpreendentemente firme.

Me sento ao seu lado e o velho começa a falar, não consigo me mover, não consigo levantar e correr dali. Estranhamente suas palavras vão me fazendo sonhar.

- "Devo ter tido uma morte tranqüila, tal como foi o decorrer de toda a minha existência. Tive uma vida pacata, sem grandes ambições, sem grandes conquistas. Eu queria morrer sorrindo, mas não sei se consegui. Talvez para dar uma pincelada de alegria nesse fim tão triste que a todos  espera.  Acho que chegou a hora da partilha daquilo que de mais valor eu possuía. É muito importante que nesse momento você esteja tranquilo, pois cada um receberá aquilo que mais necessita, mesmo que essa necessidade seja inconsciente."

E assim continuou...

"Para os ambiciosos, eu deixo a metade da minha vida, uma vida sem felicidade. Para vocês, deixo a lição da ambição, uma lição de humanismo, de caridade, de solidariedade, de compaixão. Deixo o meu maior legado, o perdão. Espero que consigam afogar essa vontade  extrema; enfim deixo o mar como exemplo, um imenso mundo líquido que, as vezes, dá muito mais do que  tira."

"Para os vaidosos, deixo a lembrança  dos deformados, portadores de cicatrizes, verdadeiras feridas na alma. Espero que procurem ver mais o interior das pessoas. Olhem  para vocês mesmos, mas não deixem  de criticar o seu próprio ser. Não sejam como a Lua que embora pareça tão bonita e brilhante, não passaria de um satélite escuro e obscuro se não fosse o reflexo de um ser maior, o sol."

"Para os invejosos, deixo o meu desejo solene de não querer, a minha vontade de não conseguir, de não ter. Deixo todos os momentos em que superei em mim a inveja doentia que se abate sobre os homens. Deixo de herança,  o único  desejo que não consegui conter, anular e, por ironia, o desejo que não consegui realizar, o desejo de viver muito mais do que eu vivi."

"Para os idealistas, deixo todos os meus sonhos. Deixo um símbolo , uma pequena e simples flor, pode não ser a mais bela, mas certamente é a mais significativa  - um jasmim perfumado, fresco."

"Para os realistas, apenas um abraço amigo, um  tapinha  nas costas  e meus sinceros votos de uma feliz existência  sem sonhos nem utopias. Espero que vocês  se percam no verdadeiro labirinto da vida, espero que  encontrem o realismo total, puro fruto de um ideal perseguido."

"Para os românticos, deixo os momentos em que admirei a beleza da natureza, deixo todas as impressões que consegui extrair de longas meditações feitas tendo companhia uma alma gêmea  e milhares de estrelas. Deixo o perfume e a beleza das flores,  a fluidez e a elegância dos pássaros."

"Desapareço na certeza de que, lá no fundo, meus erros se diluem juntamente com meu corpo e minha  memória se torna limpa e perdida no esquecimento, como um pequeno ser que um dia nasceu em alguma parte desse mundo".

O velho já não está mais ao meu lado. A rua se torna clara, o sol brilha forte e eu retomo meu caminho, seguindo o  meu destino....

1976

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Nas Cennas da Vida


Sempre que o carro deslizava pela pista, uma imensa satisfação me inchava o peito. Curioso, bastava ver o carro em movimento, nada mais me interessava,  somente aquele bólido deslizando nas retas e curvas. Nem mesmo a mesmice de voltas e mais voltas na mesma pista, muitas delas tão iguais que pareciam clones, me tirava a atenção daquele  carro.

Aquele carro representava a valentia, o orgulho de ser da terra, o amor pelas coisas certas, a certeza de fazer o que deve ser feito, o orgulho de ser parelha. Parecia até mesmo que nem motor tinha, parecia que existiam milhares de pessoas empurrando aquele carro dos sonhos pelas retas e curvas. Homens, mulheres, jovens, crianças, todos empurravam com a força do coração. Era um ronco diferente, suave, musical, inconfundível ...

Um dia, alguma coisa começou errado, não se via em sua face a mesma expressão de sempre, um brilho estranho, úmido, embaçava sua vista enquanto observava os mecânicos prepararem seu carro. Fiquei triste quando ele entrou no carro e saiu com um ronco diferente, meio abafado, meio triste.

E de repente o carro se destroça, se desmancha em vários pedaços, e apesar daquela trágica cena eu só conseguia ver aquele capacete pendendo de lado, uma única vez. E quanto mais eles repetiam aquela cena, só o movimento daquele capacete é que me importava, só uma certeza me parecia verdadeira, eu tinha acabado de perder uma das minhas referências de vida. De repente aquele monte de carros coloridosera apenas um monte de carros coloridos, nada mais do que isso. Não tinha mais Senna, em cenna.


Outubro de 2012

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Votei, e dai?

Nas primeiras vezes que sai de casa para exercer o direito de escolher meus governantes, naquela época de maneira limitada, sempre pensei em escolher entre as ideologias que se apresentavam. Sempre escolhia principalmente as idéias centrais que regiam as ações daqueles que nos governariam por aquele período.

Os tempos foram passando, nossos direitos foram se ampliando e as opções políticas foram diminuindo. É sim, foram diminuindo. Hoje eu voto no menos ruim, e rezando que se eleito ele não se torne o pior.

Deixei de votar nas idéias para votar nas pessoas. Porque os grupos não mais selecionam seus pares pelos ideais políticos comuns. Não existem mais grupos coesos, que pregam as mesmas idéias, os mesmos sonhos.

Hoje se vota nas pessoas, que mudam de partido como se troca de roupa, escolhendo a vestimenta de acordo com o destino, com a festa. Hoje se escolhe o partido pela dita situação política, pelas chances eleitorais, pelos conchavos, pelos patrocínios e pasmem, pela mesada.

É sim, hoje político ganha salário para ser político e para estar político. Ganha salário para politicar, ganha toco pra votar, enche a cueca para favorecer, se vende para manobrar, desviar, enganar aqueles que os escolheram.

Hoje votamos segundo a lei: ladrão por ladrão vote em um irmão, ou seja vote no ladrão conhecido. Se criaram a lei da ficha limpa, a genética providenciou a evolução daqueles que não podem mais participar da brincadeira de polícia e ladrão. Tomara que os filhos dos de ficha suja, continuem com suas fichas limpas, para que o ciclo não se repita.

E eu, que segundo dizia meu pai, já dobrei o cabo da boa esperança, característica de quem já completou mais de 50 anos, continuo vendo um país com os mesmos problemas de 20, 30, 40 anos atrás. Os pátios das universidades publicas repletos de carros novos e os estudantes mais pobres estudando a noite nas universidades particulares.

Não mudou nada, as escolas públicas sucateadas, os professores ganhando salários irrisórios, mal preparados sem condições de trabalho para preparar os alunos para disputar um mercador de trabalho cada vez mais competitivo, uma competitividade que chega além das fronteiras.

Aqui, na nossa terra, é a terra do tudo errado, onde nossos produtos industrializados são mais caros aqui do que no exterior, onde a população trabalha mais de que os trabalhadores dos países ditos desenvolvidos, os se paga mais imposto no mundo, onde se tem os piores serviços públicos do mundo.

Onde se acredita nas pessoas humildes até onde elas deixam de ser humildes e passam a agir do mesmo jeito e praticando as mesmas ações daqueles que combatiam.

É minha, gente, já fui da direita pra esquerda, do centro pras pontas, agora, só me resta um desejo quando se trata de política... Quero o meu direito de não escolher...




Outubro de 2012

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Caminhar? Embriaga...

Comecei a caminhar quando resolveram que eu tinha que abandonar o cigarro. Quem determinou foi minha sobrinha Rayanna de 7 anos, no dia de ano novo, quando ela me pediu para deixar de fumar.
Precisava colocar alguma coisa no lugar do velho vício. Resolvi andar por ser uma atividade solitária, daquelas que não dependem de altos investimentos, de companhias ou grupos, que na minha idade nunca combinam as agendas, basta apenas coragem e um bom par de pernas.
Decisão tomada, agora precisava determinar apenas "o onde e o quando". O onde, apesar de ser mais fácil de se determinar veio em decorrência do quando, já que meu único tempo livre de fato seria as 5 da matina,  horário  escolhido também para justificar uma futura e previsível desistência.
A beira mar em Bairro Novo fica interditada das 5 até as 7 da manhã para que os gordos, ex-gordos,  ex-fumantes e os amantes do exercício físico matutino utilizem a via. Assim, ficou determinado o onde e o quando.
Para não abandonar no primeiro dia, tentei me munir de todos os apetrechos destinados a amenizar minha primeira experiência como ex-sedentário: pequena distância a ser percorrida, musicas preferidas no Iphone, fone de ouvido, app da Nike para controlar a distância e o tempo. Mais parecia uma aventura tecnológica.
Acordar cedo foi o primeiro obstáculo vencido, com a ajuda do meu inseparável telefone. Para não perder a coragem, não pensei duas vezes, bermuda, meia, tênis de caminhada comprado no dia anterior, camiseta e .... 65 kg de preguiça. Com 15 minutos após ter levantado  eu já estava na rua, na avenida beira mar, andando...
E foi ai que se deu a mágica...
O que mais me impressionou foi o estado de inconsciência que tomou conta de mim logo que comecei a caminhar. Parecia que o tempo havia voltado e eu ainda era um adolescente.
Com  a  avenida beira mar , por mim tão conhecida daquela época, tempo das peladas na praia, dos porres nos bares, apareceram várias fisionomias conhecidas, envelhecidas, que começaram a desfilar na minha frente. O interessante  é que para cada cinquentão que eu encontrava, me vinha lá do fundo da memória um rosto jovem e conhecido.
Foi uma verdadeira viagem no tempo, no meu tempo, na minha juventude. Foi uma viagem melancólica,  mas que reconstituiu um caminho que eu já havia esquecido a muitos anos, lembrando de pessoas que passaram na minha vida e que deixaram pequenas marcas.
Comecei a lembrar também daqueles que já se foram, daqueles que hoje não mais existem. Junto com a tristeza da perda, veio também a alegria por estar ali,  com aquelas casas, aquele mar, aquele céu.
 Assim, caminhar para mim ganhou um significado bem maior. Hoje, seis meses depois,  eu ando não só para tentar manter o corpo saudável, mas também para relembrar histórias de minha adolescência, fatos que pareciam na época não ter a mínima importância, mas que hoje eu os vejo como verdadeiras lições de vida.
O grande problema que eu tive após o primeiro dia foi físico. Apesar de ter planejado caminhar uma pequena distância, terminei andando quase 10 quilômetros, o que me deixou com fortes dores nas pernas, assim que o sangue esfriou. Verdadeiramente embriagado pelas lembranças, não senti o tempo passar,  nem o esforço físico que fiz. 


Junho de 2012

terça-feira, 5 de junho de 2012

Reflexos e Reflexões - 1981

- Vagabunda, ordinária! Você não serve para nada, velha surda! Como pode ser tão fraca, tão covarde???

A voz ecoou alta e estridente pelos corredores. Era do tipo autoritário, mas totalmente insegura, melancólica, um lamento profundo vindo de dentro de um corpo que olhava outro, com olhar fixo, pesado. O ódio se fazia presente  através da revolta interior visível na sua face, nas suas palavras e gestos.

- Olhe só para você, vivendo sozinha em meio a tantos trastes, nem a solidão lhe corroeu, nem pra casar você serviu.

As paredes eram frias e úmidas. Um leve tom esverdeado refletia a luz dos candeeiros que ardiam dia e noite, como se consumissem o tempo como combustível interminável.  Cada aposento parecia um museu abandonado; móveis enormes, de madeira escura bem trabalhada, grandes espelhos, tapetes felpudos e poeirentos. Salas enormes que viviam imersas numa semi-escuridão tranquila e enfadonha, cheirando a mofo, mergulhadas num silêncio que só era cortado pelo monólogo frio e espalhafatoso que se desenrolava, ecoando por aquelas paredes, se perdendo no tempo.

- Velha idiota! Você nunca teve coragem de enfrentar o mundo, de deixar que novas correntes lhe carregassem, que novas ideias e formas de viver tomassem conta de sua mente, me confinando aqui, me condenando a não viver, a não ter prazer, a não sentir, tornando toda essa desgraça uma constante na minha vida, como se fosse uma punição por um crime que nunca cometi. Se eu pudesse tocá-la eu a mataria sua velha. Você apodreceu por dentro. Você vive presa numa tumba. Tudo cheira a mofo, inclusive você, velha burra!!

O rosto triste parecia que ia se desmanchar de tanta amargura. Os olhos azuis, pesados, semi-cerrados, eram a única visão agradável naquele corpo nu, enrugado e flácido que continuava de  pé, falando, xingando, praguejando. Chorava como uma menina para depois gargalhar, numa risada sarcástica que se espalhava pelo casarão, querendo transmitir uma alegria que não existia, uma felicidade morta.

- Olhe para mim, veja como você me reduziu a um trapo velho e imprestável. Eu devia ter insistido, devia ter fugido de você. Você me obrigou a ficar aqui e me condenou a envelhecer, a apodrecer nessa sala, nesses quartos. Vá para o inferno!!!

O grito soou alto e ela caiu num choro grunido, mais algumas lágrimas rolaram no seu rosto e, enquanto chorava, baixou a cabeça, como se não quisesse ver a sua imagem refletida num grande e velho espelho, chorando também...

- Maldito tempo...